Qual é a influência do aquecimento global no calor e nas chuvas que atingem SP?
Meteorologistas dizem que há poucos dados para associar fenômenos.Especialista em clima diz que, teoricamente, pode haver influência.
Mariana Oliveira Do G1, em São Paulo
A maioria dos especialistas em clima ouvidos pelo G1 evitam associar as chuvas que atingem São Paulo desde o final de dezembro e o forte calor registrado nas últimas semanas com o aquecimento global. Alguns afirmam que não há influência e outros dizem que não há dados suficientes para responder à questão. Um dos principais especialistas em mudanças climáticas do país, o climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), diz que, teoricamente, pode sim haver relação entre os fenômenos, embora não haja dados científicos para comprovar a teoria. Aquecimento global é o aumento da temperatura no planeta em razão da maior quantidade de gases poluentes na atmosfera. Segundo os cientistas, uma das consequências é o aumento de eventos climáticos extremos, como inundações e ondas de calor.
08/02 As chuvas em São Paulo desde o começo do ano estão realmente anormais?
09/02 Qual é a influência do aquecimento global no calor e nas chuvas que atingem SP?
10/02 É possível reverter as intervenções urbanas que provocam enchentes na capital?
11/02 A obra da Marginal Tietê agrava o problema das enchentes na cidade?
12/02 Há solução para o problema das enchentes em São Paulo?O debate sobre a influência do aquecimento global nas chuvas em São Paulo faz parte de uma série de reportagens do G1 sobre um dos principais problemas dos paulistanos atualmente: as causas e consequências dos temporais. Na segunda (8), o G1 discutiu se a frequência e quantidade de chuvas estão fora do comum. Confira ao lado o cronograma das reportagens. Em janeiro deste ano, São Paulo registrou a maior marca em volume de chuvas para o mês desde 1947, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) - foram 480,5 milímetros de chuva contra 481,4 mm há 63 anos. Além disso, só nos quatro primeiros dias de fevereiro choveu 60% da média histórica para o mês na capital.
Entenda abaixo o porquê de tanta chuva. De acordo com Carlos Nobre, teoricamente o aquecimento global, juntamente com o aquecimento local de São Paulo, podem sim ser responsáveis pela maior intensidade e frequência das chuvas. "Eu mesmo tento responder essa pergunta, mas não tenho dados de chuva diária de São Paulo, que são fundamentais para essa análise. Como cientista, preciso dos dados para tirar uma conclusão mais rigorosa. A falta de informação é um entrave que atrapalha demais o conhecimento científico", diz Nobre. Nobre afirma que já solicitou o histórico diário de chuvas para o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e para o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da Universidade de São Paulo (USP) - são os únicos dois institutos com dados antigos, da década de 30.
saiba mais
Temporal em SP deixa dois mortos e dois desaparecidos
Moradores afetados por enchentes em SP percorrem 40 km para receber auxílio
Revoltados com enchentes, moradores bloqueiam estrada em SP
Parque da Independência e Museu do Ipiranga sem previsão de reabertura
Internautas já fazem até bolão no Twitter para acertar hora da chuva em SP
Cruz Vermelha recolhe 40 toneladas de donativos para vítimas das chuvas
Em quatro dias, chove mais de 60% da média histórica de fevereiro em SP
"Não chove só em São Paulo, chove acima da média no Sudeste como um todo. Isso tem a ver com o El Ninõ. Quase todos os El Ninõ fortes influenciaram o Sul. Alguns fortes influenciam São Paulo, não são todos. Em 1998 não influenciou, esse aparentemente está influenciando. Mas mesmo quando não chove nos outros locais, chove em São Paulo. É improvável que isso tenha acontecido antes, com chuva há tantos dias. Por isso temos que olhar para o próprio aquecimento da cidade. Quando olha do ponto de vista teórico, se tem uma cidade mais quente, pode chover mais", diz Nobre. O meteorologista Marcelo Seluchi, chefe de Supercomputação do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), ligado ao Inpe, diz que responder se as chuvas são responsáveis pelo aquecimento global é "difícil", mas que não há como descartar a influência. "É muito difícil saber se há efeitos do aquecimento global. Teríamos que comparar São Paulo em dois casos ('antes rural, com vegetação, e hoje, basicamente coberta por cimento'). (...) Mas o aquecimento global afeta toda região, com mais intensidade na cidade de São Paulo e redondezas. Então não dá para descartar totalmente a influência", afirma Seluchi.Para o meteorologista do CPTEC, no entanto, outros fatores têm mais responsabilidade para os temporais: a localização geográfica de São Paulo, que recebe a brisa do mar; e o fato de grande parte da região estar em um vale, com o cimento e o asfalto não permitindo que a absorção da água. Cautela Também meteorologista do CPTEC, Cláudia Prestes é mais cautelosa. "A tendência, quase se fala em mudanças climáticas, é de maior abrangência. Não se consegue ver no olhômetro. Os efeitos são verificados a longo prazo", avalia. Meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Marcelo Schneider diz que faltam dados para fazer essa associação. "Não existe pesquisa que mostre isso diretamente", diz ele, para quem as chuvas que atingem São Paulo são consequência de condições atmosféricas isoladas, como o fenômeno El Ninõ, a umidade do ar por conta do inverno e primavera chuvosos e das ilhas de calor que se formam em São Paulo. Já o professor Augusto José Pereira Filho, do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP) e doutor em meteorologia pela Universidade de Oklahoma (EUA), acredita que não há razão para associar os fenômenos. "Essa variabilidade no clima é normal. Se fosse o aquecimento global, como explicaríamos o frio intenso na Europa, no Hemisfério Norte? Esse verão está mais quente, mas temos que lembrar que tivemos um inverno e primavera bem frios. Logo o calor vai passar. Isso é típico do verão e por causa do El Ninõ há mais umidade e chove mais", diz Pereira Filho.
Globo.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário