
Biodiversidade tem preço?
Qual é o valor da biodiversidade? Depende de quem tenta fazer a conta. Para uma criança que mergulha pela primeira vez num riacho cristalino e repleto de peixes, ela provavelmente não tem preço. Já para os economistas — ou pelo menos para aqueles interessados na relação do homem com o ambiente —, é perfeitamente viável calcular o que se poderia chamar de “valor funcional” da biodiversidade. Sim, porque a natureza presta uma série de serviços à humanidade. Exemplo: quanto custaria regular o clima do planeta se as florestas que já ajudam a fazê-lo naturalmente fossem todas dizimadas? E se tivéssemos de criar uma gigantesca máquina purificadora de ar para substituir os organismos que convertem dióxido de carbono em oxigênio? Muita gente vem tentando estimar esses custos. E os números são impressionantes.
Em 1997, a publicação de um estudo liderado pelo economista americano Robert Constanza gerou um bocado de controvérsia ao concluir que todos os ecossistemas existentes no mundo nos propiciavam o equivalente a 33 trilhões de dólares anuais em bens e serviços ecológicos. Hoje, há quem considere esse valor exagerado. Mas estimativas recentes parecem indicar que Constanza talvez não estivesse errado.
“O custo da perda da biodiversidade está avaliado entre 2,5 e 4,5 trilhões de dólares anuais, o equivalente ao PIB do Japão”, afirmou o CEO da Philips no Brasil, Marcos Bicudo, durante a abertura do Fórum. Os dados são do projeto “A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade”, ou relatório TEEB, como vem sendo chamado pela sua sigla em inglês (veja aqui a versão em português) o estudo conduzido pelo economista indiano Pavan Sukhdev, que afirmou: “se continuarmos no atual ritmo de destruição, o prejuízo será equivalente a 7% do PIB mundial em 2050”. Segundo Bicudo, o impacto econômico da biodiversidade precisa ser inserida na contabilidade das empresas, tanto na sua forma positiva como negativa.
Quer pagar quanto?
Por mais que a noção de valor esteja clara, quantificá-la e transformá-la em moeda não é fácil. “Em muitos países, como no Caribe, existe a cultura de que é impossível precificar algo inestimável como a vida, o que torna difícil adotar uma posição única”, explica a secretária nacional de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Maria Cecília Wey de Brito. Ela defende, no entanto, que a noção de valor, na forma objetiva de preço ou não, é importante para criar marcos regulatórios que possibilitem, por exemplo, as empresas negociarem entre si e com os seus fornecedores questões relacionadas com a biodiversidade em iguais condições de tratamento.
Em sua participação no debate, o chefe do Departamento de Políticas e Estudos Ambientais do BNDES, Márcio Macedo da Costa (na foto, ao centro) defendeu uma simplificação dessa contabilidade e a associação da biodiversidade com insumos, como a água, para que ela possa entrar nas planilhas das empresas. “Foi o que aconteceu com o mercado de carbono. Ele evoluiu porque conseguimos atribuir uma unidade sobre a tonelada de CO2 equivalente, que é negociada internacionalmente por todos os países, mas ainda não conseguimos fazer isso com a biodiversidade”, afirma. Segundo um relatório do Banco Mundial publicado em maio, o mercado de carbono movimentou 144 bilhões de dólares em 2009, um crescimento de 6% em relação a 2008.
Segundo o economista e professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo José Eli da Veiga, há uma dificuldade em estabelecer valor monetário para muitas “coisas” que não têm mercado, como ar limpo, por exemplo. “Há uma corrente na economia que considera os bens e serviços da Natureza públicos e gratuitos, que não têm valor ou preço, pois para isso é preciso haver oferta e demanda. É possível simular mercado e criar convenções, mas não isso tem base científica”, afirma.
A tendência, no entanto, é que essa realidade seja superada por outra que a própria perda de biodiversidade vem impondo. No interior de São Paulo, por exemplo, o desaparecimento de abelhas vem obrigando empresários do agronegócio a contratar trabalhadores para fazer a polinização das culturas de maracujá. Detalhe: a mão de obra contratada para fazer o serviço que deveria ser dos insetos já corresponde a um quinto do custo de produção — dispêndio concreto e objetivo que não existiria se as colmeias não estivessem sumindo.
“Temos, nós que trabalhamos em empresas, uma grande dificuldade em entender o que não cabe dentro do Excel, mas aos poucos estamos aprendendo a colocar mais coisas na planilha que se revelam um grande potencial”, disse o diretor de sustentabilidade da Natura, Marcos Vaz.
Reconhecer o valor e avaliar os custos monetários dos serviços ambientais no nosso dia a dia — nos negócios, no trabalho, na saúde e no bem-estar — são meios, portanto, de chamar a atenção para a importância da biodiversidade e de seu papel na manutenção da capacidade da Terra de sustentar gerações futuras. Como lembrou o superintendente de Conservação do WWF-Brasil, Cláudio Maretti, “cada vez mais, o valor não está apenas naquilo que é tangível, mas também no que é intangível, seja no interesse do consumidor, na criatividade do executivo e nos serviços ecológicos, que são fundamentais”.
Custo e benefício:
- Os insetos que transportam o pólen entre as culturas têm seu valor estimado em mais de US$ 200 BILHÕES por ano na economia global de alimentos.
- A pesca mundial emprega cerca de 200 milhões de pessoas, fornece cerca de 16% da proteína consumida no mundo e tem um valor estimado em US$ 82 BILHÕES.
- Os recifes de corais valem mais de US$ 18 MILHÕES por quilômetro quadrado ao ano para a gestão dos riscos naturais, até US$ 100 MILHÕES para o turismo, mais de US$ 5 MILHÕES em material genético e bioprospecção e até US$ 331 800 para a pesca.
Fonte: http://www.forumbiodiversidade.com.br/materias/biodiversidade-tem-preco.php
Qual é o valor da biodiversidade? Depende de quem tenta fazer a conta. Para uma criança que mergulha pela primeira vez num riacho cristalino e repleto de peixes, ela provavelmente não tem preço. Já para os economistas — ou pelo menos para aqueles interessados na relação do homem com o ambiente —, é perfeitamente viável calcular o que se poderia chamar de “valor funcional” da biodiversidade. Sim, porque a natureza presta uma série de serviços à humanidade. Exemplo: quanto custaria regular o clima do planeta se as florestas que já ajudam a fazê-lo naturalmente fossem todas dizimadas? E se tivéssemos de criar uma gigantesca máquina purificadora de ar para substituir os organismos que convertem dióxido de carbono em oxigênio? Muita gente vem tentando estimar esses custos. E os números são impressionantes.
Em 1997, a publicação de um estudo liderado pelo economista americano Robert Constanza gerou um bocado de controvérsia ao concluir que todos os ecossistemas existentes no mundo nos propiciavam o equivalente a 33 trilhões de dólares anuais em bens e serviços ecológicos. Hoje, há quem considere esse valor exagerado. Mas estimativas recentes parecem indicar que Constanza talvez não estivesse errado.
“O custo da perda da biodiversidade está avaliado entre 2,5 e 4,5 trilhões de dólares anuais, o equivalente ao PIB do Japão”, afirmou o CEO da Philips no Brasil, Marcos Bicudo, durante a abertura do Fórum. Os dados são do projeto “A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade”, ou relatório TEEB, como vem sendo chamado pela sua sigla em inglês (veja aqui a versão em português) o estudo conduzido pelo economista indiano Pavan Sukhdev, que afirmou: “se continuarmos no atual ritmo de destruição, o prejuízo será equivalente a 7% do PIB mundial em 2050”. Segundo Bicudo, o impacto econômico da biodiversidade precisa ser inserida na contabilidade das empresas, tanto na sua forma positiva como negativa.
Quer pagar quanto?
Por mais que a noção de valor esteja clara, quantificá-la e transformá-la em moeda não é fácil. “Em muitos países, como no Caribe, existe a cultura de que é impossível precificar algo inestimável como a vida, o que torna difícil adotar uma posição única”, explica a secretária nacional de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Maria Cecília Wey de Brito. Ela defende, no entanto, que a noção de valor, na forma objetiva de preço ou não, é importante para criar marcos regulatórios que possibilitem, por exemplo, as empresas negociarem entre si e com os seus fornecedores questões relacionadas com a biodiversidade em iguais condições de tratamento.
Em sua participação no debate, o chefe do Departamento de Políticas e Estudos Ambientais do BNDES, Márcio Macedo da Costa (na foto, ao centro) defendeu uma simplificação dessa contabilidade e a associação da biodiversidade com insumos, como a água, para que ela possa entrar nas planilhas das empresas. “Foi o que aconteceu com o mercado de carbono. Ele evoluiu porque conseguimos atribuir uma unidade sobre a tonelada de CO2 equivalente, que é negociada internacionalmente por todos os países, mas ainda não conseguimos fazer isso com a biodiversidade”, afirma. Segundo um relatório do Banco Mundial publicado em maio, o mercado de carbono movimentou 144 bilhões de dólares em 2009, um crescimento de 6% em relação a 2008.
Segundo o economista e professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo José Eli da Veiga, há uma dificuldade em estabelecer valor monetário para muitas “coisas” que não têm mercado, como ar limpo, por exemplo. “Há uma corrente na economia que considera os bens e serviços da Natureza públicos e gratuitos, que não têm valor ou preço, pois para isso é preciso haver oferta e demanda. É possível simular mercado e criar convenções, mas não isso tem base científica”, afirma.
A tendência, no entanto, é que essa realidade seja superada por outra que a própria perda de biodiversidade vem impondo. No interior de São Paulo, por exemplo, o desaparecimento de abelhas vem obrigando empresários do agronegócio a contratar trabalhadores para fazer a polinização das culturas de maracujá. Detalhe: a mão de obra contratada para fazer o serviço que deveria ser dos insetos já corresponde a um quinto do custo de produção — dispêndio concreto e objetivo que não existiria se as colmeias não estivessem sumindo.
“Temos, nós que trabalhamos em empresas, uma grande dificuldade em entender o que não cabe dentro do Excel, mas aos poucos estamos aprendendo a colocar mais coisas na planilha que se revelam um grande potencial”, disse o diretor de sustentabilidade da Natura, Marcos Vaz.
Reconhecer o valor e avaliar os custos monetários dos serviços ambientais no nosso dia a dia — nos negócios, no trabalho, na saúde e no bem-estar — são meios, portanto, de chamar a atenção para a importância da biodiversidade e de seu papel na manutenção da capacidade da Terra de sustentar gerações futuras. Como lembrou o superintendente de Conservação do WWF-Brasil, Cláudio Maretti, “cada vez mais, o valor não está apenas naquilo que é tangível, mas também no que é intangível, seja no interesse do consumidor, na criatividade do executivo e nos serviços ecológicos, que são fundamentais”.
Custo e benefício:
- Os insetos que transportam o pólen entre as culturas têm seu valor estimado em mais de US$ 200 BILHÕES por ano na economia global de alimentos.
- A pesca mundial emprega cerca de 200 milhões de pessoas, fornece cerca de 16% da proteína consumida no mundo e tem um valor estimado em US$ 82 BILHÕES.
- Os recifes de corais valem mais de US$ 18 MILHÕES por quilômetro quadrado ao ano para a gestão dos riscos naturais, até US$ 100 MILHÕES para o turismo, mais de US$ 5 MILHÕES em material genético e bioprospecção e até US$ 331 800 para a pesca.
Fonte: http://www.forumbiodiversidade.com.br/materias/biodiversidade-tem-preco.php
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