
O desafio da próxima década
Uma das principais metas que devem ser debatidas em Nagoya pelos 193 países participantes da COP 10 será a de sustar a perda de biodiversidade até 2020, por meio de um plano estratégico que deve ser proposto principalmente por países europeus, como prevêem alguns especialistas, e que antecipou o debate no Fórum ao longo de todo o dia: estamos preparados para cumpri-lo?
“Como conservacionista eu acho ótimo, mas é viável? Isso é fácil para eles [os europeus], que já perderam boa parte da sua biodiversidade”, afirmou o diretor de Conservação da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Dias. Esse ressaltou que a redução das pressões que ameaçam a biodiversidade não passa apenas pela área ambiental, mas devem envolver acordos em vários outros setores, como o energético, de transporte, agrícola, de petróleo.
De fato, o mundo todo terá de se envolver mais do que já fez para conseguir cumprir as metas que o plano anterior, cujo prazo se encerra neste ano, deixou pelo caminho. Em 2002, os países comprometeram-se a chegar a 2010 com taxa zero de perda da biodiversidade. O resultado, aferido no recém-publicado Panorama da Biodiversidade Global 3, foi o fiasco total. Segundo a secretária nacional de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Maria Cecília Wey de Brito, os poucos resultados envolveram a redução dos índices de poluição e a criação de áreas de conservação. Neste quesito, o Brasil fez bonito, atingindo 75% da meta mundial. “É uma posição privilegiada do país que vamos levar para Nagoya”, afirmou, no início da sua palestra. Todo o resto, no entanto, fracassou.
O desafio, claro, não é pouco. Como afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki- Moon, no Panorama da Biodiversidade Global 3, as principais pressões que levam à perda de biodiversidade não são apenas constantes, mas estão, em alguns casos, se intensificando. “As tendências atuais estão nos pondo cada vez mais perto de uma série de potenciais pontos de ruptura, o que reduziria de maneira catastrófica a capacidade dos ecossistemas de prestar serviços essenciais.”
“O tema ainda não está nas agendas política e econômica brasileiras. Para que as metas para 2020 sejam alcançáveis, há discussões complexas que ainda precisam ser feitas, como a repartição dos benefícios dos recursos genéticos. Entendemos que é preciso legislação para esse e outros temas, mas ainda não há uma convergência entre os poderes Executivo e Legislativo”, afirmou Maria Cecília.
Primeiros passos
Para o economista e professor da Faculdade de Economia da USP José Eli da Veiga, cabe à iniciativa privada impulsionar esse movimento. “As empresas se adaptam mais rápido, principalmente se pressionadas pelos consumidores, do que governos e legisladores. Um bom exemplo é o que vem acontecendo com as usinas de álcool e açúcar. Muitas já perceberam que não dá para exportar sem a certificação da cana de açúcar, o que exige o cumprimento de uma série de regras. A conseqüência disso é que em cerca de 200 municípios paulistas a cobertura da Mata Atlântica está se recuperando”, afirmou.
Para o chefe do Departamento de Políticas e Estudos Ambientais do BNDES, Márcio Macedo da Costa, as empresas podem colaborar nesse processo atuando em várias frentes: com investimentos em melhorias na eficiência da cadeia produtiva, para reduzir impactos e desperdício; no apoio a Unidades de Conservação, que precisam de recursos para se estruturar; em projetos de recuperação de áreas e reflorestamento; no estímulo à inovação tecnológica e no incentivo econômico de espécies florestais e não-florestais da nossa biodiversidade.
Para o superintendente de Conservação do WWF-Brasil, Cláudio Maretti, o Brasil deve ser audacioso no objetivo de interromper esse extermínio, como forma de garantir a sua liderança estratégica e econômica no futuro. Para isso, será preciso que se adote uma visão do que ele chamou de “gestão de paisagem”, ou seja, que envolva toda uma região, de forma integrada. “Temos de ter paisagens sustentáveis, que respeite a lógica das comunidades tradicionais locais, com proteção dos cultivares e a conservação adequado dos recursos naturais.” E questionou: “Será que seremos burros o suficiente para jogar fora a nossa mina de ouro?”.
VEJA AS PRINCIPAIS PRESSÕES ATUAIS SOBRE A BIODIVERSIDADE
DEGRADAÇÃO DE HÁBITATS. Desmatamentos e aterramentos, assim como abertura de pastos e de estradas reduzem, fragmentam ou alteram os habitats a ponto de as populações de espécies locais não conseguirem mais se manter. Boa parte hoje das terras silvestres estão sendo convertidas para a agricultura, que já representa 30% da superfície da Terra.
SOBRE-EXPLOTAÇÃO. É a exploração excessiva dos recursos da biodiversidade. A extração abusiva de madeira nativa no país ameaça árvores como o jacarandá. Várias espécies de peixes, como o atum, também estão desaparecendo em função da pesca sem limites, que muitas vezes não respeita nem o período de procriação.
POLUIÇÃO. Poluição do ar, da água e da terra prejudicam os ecossistemas de várias formas. Exemplo clássico é o rio Tietê no trecho da região metropolitana de São Paulo. A matéria orgânica despejada com o esgoto não tratado é consumida por bactérias, que, no processo, consomem o oxigênio da água, matando os outros organismos vivos. Isso sem falar da contaminação por matéria inorgânica - como metais, cianeto e fluoreto.
ESPÉCIES EXÓTICAS INVASORAS. São aquelas introduzidas, intencionalmente ou não, em hábitats não originais. Adaptam-se bem a eles e acabam ameaçando as espécies nativas, ao se alimentar delas ou disputar recursos. Essa questão afeta muito as pequenas ilhas. Em Fernando de Noronha, o lagarto teju, introduzido para combater os ratos (também exóticos à ilha), come a mabuia, uma lagartixa endêmica do arquipélago, e os ovos das aves.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS. As pesquisas ainda não identificaram todas as suas consequências, mas já se sabe que pequenas alterações no clima podem afetar bastante a vida dos organismos. Um exemplo são as espécies de grandes altitudes, endêmicas e adaptadas ao clima frio, que sofrem com a elevação das temperaturas. Mares mais quentes podem forçar os peixes a migrarem, empobrecendo as águas tropicais.
Fonte: http://www.forumbiodiversidade.com.br/materias/o-desafio-da-proxima-decada.php
Uma das principais metas que devem ser debatidas em Nagoya pelos 193 países participantes da COP 10 será a de sustar a perda de biodiversidade até 2020, por meio de um plano estratégico que deve ser proposto principalmente por países europeus, como prevêem alguns especialistas, e que antecipou o debate no Fórum ao longo de todo o dia: estamos preparados para cumpri-lo?
“Como conservacionista eu acho ótimo, mas é viável? Isso é fácil para eles [os europeus], que já perderam boa parte da sua biodiversidade”, afirmou o diretor de Conservação da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Dias. Esse ressaltou que a redução das pressões que ameaçam a biodiversidade não passa apenas pela área ambiental, mas devem envolver acordos em vários outros setores, como o energético, de transporte, agrícola, de petróleo.
De fato, o mundo todo terá de se envolver mais do que já fez para conseguir cumprir as metas que o plano anterior, cujo prazo se encerra neste ano, deixou pelo caminho. Em 2002, os países comprometeram-se a chegar a 2010 com taxa zero de perda da biodiversidade. O resultado, aferido no recém-publicado Panorama da Biodiversidade Global 3, foi o fiasco total. Segundo a secretária nacional de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Maria Cecília Wey de Brito, os poucos resultados envolveram a redução dos índices de poluição e a criação de áreas de conservação. Neste quesito, o Brasil fez bonito, atingindo 75% da meta mundial. “É uma posição privilegiada do país que vamos levar para Nagoya”, afirmou, no início da sua palestra. Todo o resto, no entanto, fracassou.
O desafio, claro, não é pouco. Como afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki- Moon, no Panorama da Biodiversidade Global 3, as principais pressões que levam à perda de biodiversidade não são apenas constantes, mas estão, em alguns casos, se intensificando. “As tendências atuais estão nos pondo cada vez mais perto de uma série de potenciais pontos de ruptura, o que reduziria de maneira catastrófica a capacidade dos ecossistemas de prestar serviços essenciais.”
“O tema ainda não está nas agendas política e econômica brasileiras. Para que as metas para 2020 sejam alcançáveis, há discussões complexas que ainda precisam ser feitas, como a repartição dos benefícios dos recursos genéticos. Entendemos que é preciso legislação para esse e outros temas, mas ainda não há uma convergência entre os poderes Executivo e Legislativo”, afirmou Maria Cecília.
Primeiros passos
Para o economista e professor da Faculdade de Economia da USP José Eli da Veiga, cabe à iniciativa privada impulsionar esse movimento. “As empresas se adaptam mais rápido, principalmente se pressionadas pelos consumidores, do que governos e legisladores. Um bom exemplo é o que vem acontecendo com as usinas de álcool e açúcar. Muitas já perceberam que não dá para exportar sem a certificação da cana de açúcar, o que exige o cumprimento de uma série de regras. A conseqüência disso é que em cerca de 200 municípios paulistas a cobertura da Mata Atlântica está se recuperando”, afirmou.
Para o chefe do Departamento de Políticas e Estudos Ambientais do BNDES, Márcio Macedo da Costa, as empresas podem colaborar nesse processo atuando em várias frentes: com investimentos em melhorias na eficiência da cadeia produtiva, para reduzir impactos e desperdício; no apoio a Unidades de Conservação, que precisam de recursos para se estruturar; em projetos de recuperação de áreas e reflorestamento; no estímulo à inovação tecnológica e no incentivo econômico de espécies florestais e não-florestais da nossa biodiversidade.
Para o superintendente de Conservação do WWF-Brasil, Cláudio Maretti, o Brasil deve ser audacioso no objetivo de interromper esse extermínio, como forma de garantir a sua liderança estratégica e econômica no futuro. Para isso, será preciso que se adote uma visão do que ele chamou de “gestão de paisagem”, ou seja, que envolva toda uma região, de forma integrada. “Temos de ter paisagens sustentáveis, que respeite a lógica das comunidades tradicionais locais, com proteção dos cultivares e a conservação adequado dos recursos naturais.” E questionou: “Será que seremos burros o suficiente para jogar fora a nossa mina de ouro?”.
VEJA AS PRINCIPAIS PRESSÕES ATUAIS SOBRE A BIODIVERSIDADE
DEGRADAÇÃO DE HÁBITATS. Desmatamentos e aterramentos, assim como abertura de pastos e de estradas reduzem, fragmentam ou alteram os habitats a ponto de as populações de espécies locais não conseguirem mais se manter. Boa parte hoje das terras silvestres estão sendo convertidas para a agricultura, que já representa 30% da superfície da Terra.
SOBRE-EXPLOTAÇÃO. É a exploração excessiva dos recursos da biodiversidade. A extração abusiva de madeira nativa no país ameaça árvores como o jacarandá. Várias espécies de peixes, como o atum, também estão desaparecendo em função da pesca sem limites, que muitas vezes não respeita nem o período de procriação.
POLUIÇÃO. Poluição do ar, da água e da terra prejudicam os ecossistemas de várias formas. Exemplo clássico é o rio Tietê no trecho da região metropolitana de São Paulo. A matéria orgânica despejada com o esgoto não tratado é consumida por bactérias, que, no processo, consomem o oxigênio da água, matando os outros organismos vivos. Isso sem falar da contaminação por matéria inorgânica - como metais, cianeto e fluoreto.
ESPÉCIES EXÓTICAS INVASORAS. São aquelas introduzidas, intencionalmente ou não, em hábitats não originais. Adaptam-se bem a eles e acabam ameaçando as espécies nativas, ao se alimentar delas ou disputar recursos. Essa questão afeta muito as pequenas ilhas. Em Fernando de Noronha, o lagarto teju, introduzido para combater os ratos (também exóticos à ilha), come a mabuia, uma lagartixa endêmica do arquipélago, e os ovos das aves.
MUDANÇAS CLIMÁTICAS. As pesquisas ainda não identificaram todas as suas consequências, mas já se sabe que pequenas alterações no clima podem afetar bastante a vida dos organismos. Um exemplo são as espécies de grandes altitudes, endêmicas e adaptadas ao clima frio, que sofrem com a elevação das temperaturas. Mares mais quentes podem forçar os peixes a migrarem, empobrecendo as águas tropicais.
Fonte: http://www.forumbiodiversidade.com.br/materias/o-desafio-da-proxima-decada.php
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